Quilometros rodados



Para desenvolver e implantar o Projeto de Artesanato Mineral, Brasil adentro viajei demais por estradas destruídas. Lugares áridos, distante de tudo, mas de tudo mesmo. Conheci todo tipo de gente. Gente simples de uma sabedoria estonteante.

Convivi com situações impensáveis.

De 1987 a 1998 anotei detalhadamente estas viagens pela Bahia, onde tudo começou, inclusive os quilômetros que rodávamos dentro do Estado. Desconsiderado que de São Paulo até lá eram 2.400 km de ida e 2.400 km de volta (de avião é verdade). O fato é que um dia resolvi somar os quilômetros rodados e quase desmaiei: já passavam de 220.000 km!!! Abandonei a somatória.

Viajamos quase sempre um motorista, um técnico, o Hélio Azevedo que criou o Projeto de Artesanato Mineral da Bahia – e mudou o rumo da minha profissão - e eu. Inúmeras vezes tivemos que atravessar o Estado da Bahia percorrendo até 800 km de distância de uma cidade a outra. O que nos obrigava a viajar o dia todo e dormir em algum lugarejo no meio do caminho.

O que mais me chamava à atenção era o fato de sempre encontrávamos mesa farta, por mais pobre que fosse a comunidade. Quantos domingos e feriados encontrávamos alguma cidade divida por uma rodovia onde havia restaurantes dos dois lados, lotados de famílias, caminhoneiros, e viajantes esporádicos como nós que buscavam mais que saciar a fome, mas encontrar um local agradável para passar algumas horas, desfazendo do calor inclemente. Lazer em família; com amigos.

Grandes varandas de madeira, parque para as crianças e algumas vezes um riacho, música quase ensurdecedora e diferente, vinda de um restaurante ao lado do outro, o que provoca o caos sonoro, mas bastante organizado! Almoço longo, com roupa de domingo e a tranqüilidade habitual, por maior que fosse a dificuldade.

Arroz, feijão de caldo, feijão verde, feijão de corda, paçoca de carne, salada de tomate, maionese, macarrão, batata e mandioca frita, queijo coalho com melado, pirão de leite, cinco ou seis tipos de carne – incluindo carne de bode e outras não classificadas, frango e com alguma sorte um peixe. Tudo junto, numa única refeição.

Assim aprendi que a simplicidade faz com que estas pessoas queiram agradar cada um de sua forma, com suas preferências.

E eu num feriado de carnaval como hoje, no sossego da minha casa penso com saudade o quanto aprendi e aprendo em cada uma dessas viagens.


2 comentários:

sheila_gies disse...

Querida,
Achei o link para o seu caderninho no Facebook. Comecei a ler e fui até o fim da página de caderno mais comprida que já tinha visto! adorei, você escreve muito bem. Senti saudades das nossas conversas longas e interessantes como a sua folha de caderno.
Abraço.

Karina disse...

Recebi do Antonio França e compartilho com vocês:
"Olá Karina como vai?
que bom saber de vc... Muito original sua história e verdadeira também, tudo continua do mesmo jeito ou pior..."

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