Telhados e piscinas

 

Lago Paranoá: a simples referência ao nome do lago me remete aos desmandos políticos da história recente do Brasil e a alguns dos seus habitantes nada ilustres.
Todas as vezes que sobrevôo Brasília fico fascinada e intrigada. Ainda é identificável o formato de asa que Niemeyer projetou para a cidade, embora cada viagem torne-se visível que as largas avenidas e as distintas construções antes tão isoladas e aparentes vão pouco a pouco se juntando e alterando esta planejada geografia. Unindo ruas e casas; formando uma massa densa e desconfigurada (para ser mais precisa, tenho observado este crescimento desordenado em muitas cidades que visito sempre e aonde chego de avião).
Torna-se interessante com a geografia predominante do Planalto Central é entrecortada por pequenos relevos que estão sendo invadidos pelas infinitas construções, em geral de condomínios de casas. Comparativamente me parecem lavas de vulcão que escorrem lentamente e se fixam por onde passam.
O citado Lago é referência de riqueza adquirida – status – de forma lícita ou não; forma duas penínsulas que reúne na parte central ruas paralelas. Absolutamente toda a casa tem piscina. Retangular e na mesma posição em relação à casa; projetos padronizados.
Já as casas que ficam a beira do Lago artificial e suas duas penínsulas ocupam grandes terrenos, tem telhados de diferentes desenhos e alturas. Quase sempre de telhas muito claras; algumas vezes com clarabóias. As piscinas têm formatos variados; muitas com raias semiolímpicas e são de um azul cobalto escuro, características de piscinas de azulejos, diferentes das outras azuis claras, de fibra de vidro. Muito provável que pouco se usufrua do próprio Lago o que obrigaria a convivência de vizinhos; a socialização. Isto me lembra Menotti Del Picchia: “De que adianta construir tantos edifícios, se não há almas para morar neles.”

22 comentários:

Joseph disse...

Karina, conheci você aos dez anos de idade. Fui apaixonado. Sonhei com você. Lembro detalhes de sua meninice. Seu cabelo crespo, comprido, claro, preso em rabo de cavalo. O irmão Artur Eugênio (como ainda me lembro deste nome?). Depois nunca mais lhe vi. Mudei de Bauru. Casei. Descasei. Casei novamente. Morei em Tel Aviv, Paris, Nova York e Lisboa. Hoje vivo em Salvador, Bahia. Sou professor da universidade. Redescobri seu nome na rede. Às vezes leio seus textos, incógnito. Sempre me trazem estranhas sensações. Talvez seja saudade.

Caderninho de Viagem disse...

Joseph
Espero que você seja quem eu penso. Asssim as lembranças são ótimas também! Fico muito feliz com você ler meus textos e ter saudade!

Cris disse...

Hmmmm! Gostei dessa história! Vai ter continuação?!

Joseph disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joseph disse...

Impressão guardada por quatro décadas é a de uma menina na puberdade com caráter de mulher. Atitude confiante próprio das meninas bonitas. Corpo feminino mais formado que o meu, ainda infantil (nesta fase as garotas se fazem fisicamente antes dos rapazes). Sempre fui impressionista. Até hoje adoro Seurat.

Caderninho de Viagem disse...

Joseph
O que impressiona é o quanto as lembranças podem ser valiosas!!

Juks disse...

"A política é a arte de conciliar os interesses próprios, fingindo conciliar os dos outros."
Menotti Del Picchia

Fora as formar bonitas da cidade "avião!" essa é a verdade descrita por alguem que viveu nela e tem razão.

Joseph disse...

Penso que as lembranças individuais são a construção da história pessoal. Cada um ergue o seu edifício. Deve ser o processo de formação do ego. As lembranças coletivas constróem a história do mundo.

Vi um fragmento do seu rosto atual no recorte da foto deste blog. Tentei compor com a imagem que trago na memória. Aliás, talvez eu tenha guardada uma foto 3X4 da K.M.A. Vou procurar.

Caderninho de Viagem disse...

Joseph
Compartilho integralmente a ideia das lembranças. O que guardo são as imagens alegres da convivência.

Nancy disse...

After living in Brasilia for 3 years and visiting numerous times over the last 30 years, I know exactly what you are talking about. Each time I visit there are more buildings and less bare ground. And of course those swimming pools keep multiplying. I have 2 sisters-in-law who have houses on the north peninsular. Even thought they live only a short distance apart they each have their own private pool...

I love this story..

Nancy

Deh disse...

GEEEEEEENTY!
Que historia fascinante, vamos providenciar o encontro dos seres! Ponte aérea Joseph:

http://www.decolar.com/search/flights/RoundTrip/SSA/SAO/2010-08-21/2010-08-23/1/0/0#ItinBox_0

Webjet arrasa!
alias, Seurat: pintor pontilhista

Joseph disse...

O pontilhismo, ou neo-impressionismo, é a porção que se renova incessantemente na arte do século 20 e adentra o 21, em imagens digitais. Para a psicanálise, o pontilhismo recupera o sonho e o estado de vigília, fragmentados por natureza, e os recompõem como possibilidade formal de expressão do indivíduo pós-moderno. Impressionista como nunca.

Caderninho de Viagem disse...

Cores não misturadas, somente justapostas se indefinidas vistas muito próximas, fascinam e permitem a visão do todo a distância correta. Sou pós-moderna. Sou contemporânea! Sonho e vigio, vigio e sonho!

Joseph disse...

Ainda sobre telhados e piscinas:
Quando eu era criaça, nos anos 1960/70, Bauru foi eleita (não sei por quem) a cidade com mais piscinas per capita do Brasil. Um voo de planador pelo céu dos Altos da Cidade comprovava a justeza da escolha. Anos depois observei, numa cena clássica de dramaturgia terra-branca, que Pérola Rasi teve o dia de glória quando inaugurou sua piscina, no fundo do seu quintal, na rua 1º de Agosto.

Joseph disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Caderninho de Viagem disse...

Well... eu sempre de encontro com as origens!
Bem lembrado o texto do meu conterrâneo!!

Deh disse...

O amor em seu estado sublime venceu!

Deh disse...

Joseph, curioso eu sou, entao: o que te levou a esse blog?

Cinthia disse...

Santo Deus, que fascinante!!!!

Joseph disse...

Deh (não conheço): o que eu lhe responder será racional; a verdade é que não sei o caminho que me trouxe a este blog.

Cinthia (Gabriele?): [Dio Santo lo dico io]. Você e sua irmã Aline foram inspiradoras de vários caras da minha geração. Lembro de um sujeito [o nome não importa, ele hoje é juiz federal] que era apaixonado por você. Acho que você nunca soube. Eu gostava muito de uma prima sua [Eliane Dabus? Ela segue este blog tb? Lembro que vocês moravam perto do Jr. Franciscato]. Simpatia apenas. A Aline eu achava inteligente. Nunca mais vi. Não vou a Bauru há anos. Já não conheço nada por lá.

Cinthia disse...

Nossa, que mundo pequeno! Sou eu mesma! Engraçado que me lembro bem pouco da minha infância em Bauru, tenho apenas alguns flashs! A Eliane hoje mora na Espanha, Zaragoza!

Eliane disse...

É verdade prima: El mundo es un pañuelo!!!!(Como dizem aqui) E como me lembro daqueles tempos que eramos tao inocentes,tao simples... Hoje em compensaçao nao me conformo que para divertir-se precisam beber até ficar de fogo e outras coisinhas mais... Joseph,nao sei quem é vc mas vc me fez lembrar como aqueles tempos eram bons e a gente nao sabia! Aliás estava pensando nisso esse fin-de-semana. Relembrando minha infancia,como era gostoso brincar de amarelinha, pular corda, andar a cavalo, subir nas arvores... Como sinto falta dessa época!!!!!E ainda mais sempre com toda a familia reunida!!!!!!Isso sim nao volta mais... :( Só ficam as lembranças...

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