Chapada Norte


Jacobina fica ao norte da Chapada Diamantina. Ao chegar à cidade a visão que se tem é muito interessante, depois de muita estrada ruim; depois de muitas horas de viagem de Salvador o senso de direção parece se perder: uma estreita estrada com um pequeno acostamento de um lado e sem nada do outro, serpenteia o início de uma planície e começa a descer. Do lado esquerdo, um imenso paredão que a maior parte do tempo sombreia a estrada, que vai descendo, mas na verdade Jacobina está na parte alta da Chapada. Depois de uns quilômetros a cidade se descortina à nossa esquerda, parecendo depositada num vale. Ela se mostra alongada. Estreita e comprida, toda organizadinha. Dividida por um rio e diversas pontes que nos levam de um lado ao outro da cidade. Se de dia faz calor as noites são frias.
Na parte mais alta e afastada dela está a rádio e o Hotel Serra do Ouro, em seu estilo colonial. Antigo mas de uma beleza singular. O mais incrível é ter toda a cidade aos nossos pés e em noites de procissão poder admirar as pessoas de velas acesas subir a encosta oposta em direção ao Cruzeiro no topo da Chapada formando um incrível rastro de fogo de mais de mil metros.Tantas vezes trabalhei por lá que fui incorporando certas rotinas locais, como essa.
Outro adorável hábito é subir até as Missões no final de tarde – onde a primeira igreja e os bares convivem harmonicamente, com música na rua, manifestações culturais e artísticas – para encontrar pessoas, conversar, beber e comer algo típico antes do dia findar.
Luciano é um jornalista muito culto; uma pessoa agradável de conversar. Muito do meu trabalho estava diretamente ligado ao dele, então sempre nos reuníamos lá para trocar idéias, avaliar novas perspectivas.
Numa dessas tarde memoráveis, o  fim de semana se aproximava e eu deveria ficar na cidade mais algum tempo. Ele e seus amigos planejavam uma longa caminhada até uma das muitas cachoeiras da região. Rapidamente me inseri ao grupo: aonde eles iam eu nunca havia estado.  Embora eu já tivesse caminhado centenas de vezes em alguma região da Chapada, achei o roteiro interessante.
Plano: sair às seis da manhã; trinta minutos de carro; uma hora e meia ou duas de caminhada. Nadar na cachoeira, almoçar, descansar, nadar mais um pouco, usufruir da natureza e voltar antes do anoitecer. Vida dura!
Cada um devia providenciar sua bebida para o dia todo e alguma comidinha para os intervalos Os organizadores levariam um caldeirão de feijoada para o almoço. Isto mesmo: um caldeirão de feijoada morro acima!
Todos reunidos, dez ou doze pessoas e iniciamos nossa caminhada. Vegetação fechada. Vez por outra uma cobra; pequenas nascentes. Pegadas frescas de lobo guará. A subida era pouco íngreme, mas bastante difícil. Nos agarrando em troncos, escorregando fomos seguindo cansados de encontro a uma visão que compensou tudo.
Carreguei em minha mochila mais que um lanchinho e quando todos se preparavam para a feijoada abri minha garrafa de vinho degustado com queijo, pão e frutas. A paisagem merecia e o esforço da volta não me permitiria uma comida tão pesada.
Ao final do dia pensei que a descida seria mais fácil, mas todos disseram que a melhor opção, depois de uma parte de caminhada era enfrentar uma descida de rapel! Parte pequena, 20 ou 30 metros o que nos faria economizar uma hora de trajeto, e afastar o risco de ao entardecer encontrar os donos das pegadas que havíamos visto de manhã...
De mais a mais seria possível admirar todo o paredão que agora só podíamos vislumbrar uma pequena parcela e que já era maravilhoso: uma enorme escarpa coberta de orquídeas e bromélias!
Se todos iam... Dei de ombro e topei.
O grupo todo tinha prática, menos eu. Recebi as instruções. Dois ou três desceram primeiro e lá fui eu. Ah, quando me amarrei a corda me avisaram que numa parte da descida era curva negativa.
Sabe o é isso!? Eu não sabia até ter que enfrentar: você tem a corda para segurar, mas seus pés não tem onde se apoiar, porque a base onde está a corda lá em cima, está mais a frente do paredão que você tem que descer!!  Você desce no vazio... Já que era impossível voltar... O negócio era continuar descendo.
Sem dúvida uma visão paradisíaca e assustadora. Um daqueles momentos em que digo que fica só Deus e eu.
Como podem ver sobrevivi e conto a quem quiser experimentar, que vai bem saber o que é liberdade.

5 comentários:

Anônimo disse...

Amiga, é preciso coragem, que aventura! Prabéns! eu não teria essa coragem. bjos

Anônimo disse...

Lógico que é pra incluir sua tia! Acho que você devia fazer textos mais curtos, com mais fotos. Essa plataforma requer isso. E devia incluir também uma ficha técnica, como ir, quando – melhor época – ir, com quem ir, essas coisas.Assim o seu caderno de viagem meio que vira guia, né?

Beijo e até São Paulo

Donaleo

Karina Achôa disse...

Tia Leo
Agradecida por fazer parte do meu Caderninho.
Meu investimento atual é escrever um livro.
Adoraria incluir todas as suas sugestões, porém para isso preciso de um patrocinador de peso: TAM, GOL, Rede Accor...
Se tiver os contatos agradeço.

Beijos

Karina

Nancy disse...

I want to know about the sound effects. I suspect you didn't do the rapelling in silence. So how loud were you screaming? I'm sure it was great fun even if you were not trained asmuch as everyone else.. I'm glad you had faith in your fellow travelers to do the unexpected. This types of unplanned sidetrips make the bigger trip so much more valuable.

Kisses and hugs

Nancy

Karina Achôa disse...

Nancy
You're right, trust is all fellow adventurer. I thought, if they are going is because it is possible. Uuuuuuu!
Karina

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