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Amante



Duas coisas me atraem sempre que viajo: mercados e cemitérios.

Explico, nos mercados procuro observar o que as pessoas compram; seus hábitos, o que levam para comer em casa. Em outros países procuro identificar alimentos que não conheço. Industrializados ou in natura. É adorável e quando disponho de mais tempo no mesmo local, volto sempre no mesmo mercado em horários regulares e observo! Mais sociológico do que pode parecer.

Já a cemitérios basta uma visita – por viagem. Esta bem, duas. Três visitas no máximo.

Com o olhar curioso de designer e com o interesse de quem gosta de história descubro primeiro se por lá tem alguém famoso enterrado. Procuro saber o que há de diferente entre o tal cemitério que estou e os cemitérios brasileiros mais comuns. Como enterram seus mortos, como os reverenciam. Tipo de túmulos que usam.

Nem planejei, mas numa tarde fria e ensolarada eu passeava por Buenos Aires quando “dei de cara” com o cemitério da Recoleta. Embora já tivesse estado outras vezes na cidade, não conhecia o cemitério e achei a hora boa para entrar.

Fiz um primeiro tour. Visitei o mausoléu de Evita, encontrei esculturas incríveis; conversei com alguns visitantes sobre curiosidades. Notei que são comuns mausoléus amplamente envidraçados, com prateleiras numa das paredes. Com porta retratos, urnas que acredito de cremação ou de exumação, com um tapete, uma ou duas cadeiras na entrada – uma espécie de sala de visita. Achei curioso e um senhor me informou que as famílias visitam seus mortos e passam horas por lá, por isso a entrada do mausoléu se parece com uma sala de visita. Achei mais curioso ainda que por ser envidraçado o mausoléu me deixava ver uma pequena escada interna que levava ao andar de baixo. Curioso, pensei!

De repente vi que um dos mausoléus tinha sua porta aberta. Não havia ninguém. Olhei para um lado, para o outro... Entrei. Realmente parecia uma sala de visitas. Cheguei no topo da escada e vi que no andar de baixo haviam prateleiras e que numa delas havia um velho caixão. Notei também que havia um ventilador ligado lá. Pensei: quem chegou até aqui... Desci. Mais fotos, mais uma cadeira sobre um pequeno tapete, luz acesa, já que a luz natural ficava na parte de cima. Eu observava cada detalhe, quando ouvi vozes se aproximando. Um burburinho e muito próximo. Olhei para cima e uns homens traziam um caixão escada abaixo, o posicionaram de tal forma que podia ser visto por quem ficou em cima; por parte da família e pela que eu imaginava ser a viúva, que a esta altura já havia descido a escada e estava quase ao meu lado e me “fuzilava” com o olhar. Eu imaginando a enrascada em que estava metida, baixei a cabeça, rezei um Pai Nosso e fingi não estar ali.

Como se não bastasse, logo descobri que era o enterro de um ex-prefeito e que todas as autoridades presentes resolveram discursar. Hora e meia, ou mais. E o ventilador não dava conta para tanta gente.

O sujeito devia ser bacana, mas foi enterrado sob a suspeita de ter tido uma amante, impiedosa a ponto de ir ao enterro.

Começar a viagem por São Paulo


A avenida Paulista em toda sua extensão reúne atividades econômicas e culturais da maior importância para São Paulo e muitas vezes para o Brasil. Ao longo dos seus pouco mais de três quilômetros abriga o novíssimo prédio-sede da Petrobras; como a tradicional Fundação Casper Líbero que historicamente formou muitos dos mais importantes jornalistas do país, e que a radio difundiu as notícias essenciais do panorama nacional.
Palco de manifestações de toda ordem, reúne eventos incontáveis como a gigantesca, alegre e colorida Parada Gay ou a tradicional Maratona Internacional de São Silvestre.
No alto dos prédios desta avenida concentram-se o maior número de heliponto em uma única região e um “transito” impressionante de helicópteros.
Abriga continuamente importantes e expressivas exposições de arte em museus como o MASP (Museu de Arte de São Paulo) – criado por Assis Chateaubriand e com projeto de Lina Bo Bardi, que permite com sua arquitetura ímpar e arrojada - ainda para os dias de hoje, integrar visualmente pelo seu grande vão livre a visão completa dos arranha-céus do Centro da cidade (distante uns tres quilometros) com a preservação da natureza - no lado oposto ao Museu: uma área remanescente da Mata Atlântica, em pleno coração da cidade, o Parque Trianon, Tenente Siqueira Campos. E como bem escreveu Caetano Veloso sobre São Paulo: “da dura poesia concreta de tuas esquinas...” surgem os trabalhadores que utilizam o Parque como via de acesso e aqueles que lá vão buscar caminhadas, exercícios físicos, Tai Chi Chuan ou passear com seus filhos.
Em termos culturais, ainda encontra-se Galeria do Banco Central, o Museu da Numismática; galerias contemporâneas como a da FIESP, da Caixa Economia, do SESC e do Itaú. Com cinemas, teatros e shows.
Mega livrarias tradicionais como a Cultura no prédio do Conjunto Nacional, Martins Fontes ou a mais recente francesa FNAC.
A Casa das Rosas no início da Avenida, antiga residência do início do século passado, é hoje o Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura.
É essencial um olhar atento e ávido para aproveitar o que se traduz dessa mistura de tradição e modernidade!

Maria Cristina Neuscheffer de Oliveira, minha amiga-irmã vivia me incentivando a transformar meus textos de viagem em um blog: Cris você conseguiu! Agora me aguenta!!

Há pouco mais de um ano conheci o a
rquiteto argentino Jorge A, que mora no Rio de Janeiro. Ele pediu-me para escrever uma visão mais romanceada de alguns pontos de São Paulo para mesclar a um texto dele técnico que seria publicado no O Clarim em Buenos Aires. Aceitei na hora, pois sempre amigos e amigos de amigos me escrevem pedindo um roteiro para visitar a cidade e ter um olhar paulistano.
Como não nasci aqui, falo um pouco como "filha" mesmo dessa cidade e um pouco como turista que adora explorar o que ela tem de melhor.

A foto é de Buenos Aires, tirada recentemente, e em homenagem ao motivo do texto.

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