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Licor de Jenipapô e Veuve Clicquot

Assim mesmo: Jenipapô! Com acento circunflexo no ô!! É como diz meu amigo belga Emile, que vive na Provence.

Aliás, quando ele começou a aprender português, sabia apenas três palavras: “Ó do borogodó”; p.q.p. (isso mesmo, só que por extenso) e licor de jenipapô! Dá pra notar que tem algo na alma dele que é brasileira. Da minha parte tem algo na minha alma que é francesa: adoro Veuve Clicquot. Por isso sempre fazemos uma troca justa: uma garrafa por outra!
Quando começo arrumar as malas, vou me dividindo entre a alegria de ir e o medo do avião. Entre o prazer de vivenciar novas culturas, novos lugares em cidades que já estive outras tantas vezes ou não, e a preocupação de trocar de trem na plataforma certa, lembrar de toda a bagagem; comunicar-me bem em outras línguas...
Gosto da intimidade de ir várias vezes ao mesmo lugar e saber que vou encontrar algo familiar, que de alguma forma me dê conforto apesar da distância de casa. Reencontrar hábitos me dá muita satisfação, como o que devo ver agora na Europa: a frente das casas e das lojas, repletas de vasos de coloridas flores anunciando a Primavera. Enfeites artesanais de ovos e coelhos anunciando a Páscoa. Ah! E sem dúvidas a deliciosa temporada de aspargos... Hummm!
Viajar é muito mágico: trocamos de país, de língua, de cultura, de clima em horas e nos adaptamos rapidamente. Amigos brasileiros vivendo fora e amigos estrangeiros que se identificam com o Brasil, temperam este sentimento. Muito desta identificação esta ligada a cultura gastronômica ou etílica!! Como uma forma de amenizar a saudade.

Carrego um pouco de tudo na minha mala para os amigos de lá. E entendo o que vejo de mais inusitado quando acontece uma fiscalização.

Anos atrás em Zurique ajudei uma senhora com sotaque nordestino que diante de uma caixa aberta tentava explicar em português - mais gesticulando que falando - ao fiscal suíço.

- Macaxeira, quiabo, camarão seco, gengibre! Minha filha tá grávida (e corria a mão em semicírculo desde debaixo dos seios até a púbis) de oito meses e tá com vontade de comer vatapá, caruru (fazendo gesto de picar bem miúdo, mexer e comer) e aqui não tem.

O pobre do fiscal olhava incrédulo aquele tubérculo ainda com terra em volta e sacudia a cabeça se perguntando que raios seria aquilo.


Estou arrumando as malas.

Os amigos baianos viraram fornecedores de licor de boa qualidade e o amigo belga já deve ter colocado meu champanhe para gelar.

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